Narrativa: Ser idosa

Há uns anos atrás questionaram-me como me imaginava como idosa, e eu com 20 anos, respondi o seguinte: “ (…) Com 20 anos já sou uma pessoa seletiva a nível das relações interpessoais e com traços de personalidade difíceis de controlar, logo acredito me irei manter assim (…) Serei rabugenta e muito faladora. Provavelmente com problemas de saúde e com grande dependência. Terei dificuldade em lidar com as perdas, o que contribuirá para o meu envelhecimento. Terei também dificuldade em lidar com as mudanças do corpo (…) Vou ficar triste de saber que a vida se está a acabar.” Pouco tempo depois de ter respondido essa afirmação, consegui o meu primeiro emprego como assistente social. Esse foi o momento em que comecei a repensar a resposta que dei. Ao trabalhar diariamente com idosos e ao fazer um esforço diário para entender o seu modo de viver, pensei que a resposta que dei, não foi de todo a forma como me imaginava e como queria envelhecer. Afinal, ainda estava a tempo de mudar as minhas perspetivas sobre o processo de envelhecimento. Questionava-me se ter pensamentos tristes e pessimistas seria o caminho certo. Afinal para eu trabalhar com idosos e para os fazer sentirem-se bem com a velhice também me tinha de imaginar de uma forma positiva. Não iria estar a diariamente a dizer para não serem tão pessimistas, quando eu própria me imaginava assim. Atualmente tenho 70 anos, estou reformada mas continuo a desenvolver atividades diárias como o voluntariado e a universidade sénior. Estudei toda a minha vida, até poder. Continuo a ser uma pessoa teimosa, curiosa, amiga, sensível, confusa e impulsiva (mas muito mais moderada do que quando era nova). Ainda “fervo em pouca água”, mas já me controlo melhor. A vida ensinou-me a pensar muitas vezes antes de falar. A nível social, tenho um grupo de amigas que estão comigo na universidade sénior. Pratico também voluntariado em duas instituições. Falamos muito umas com as outras. Vivo com o meu marido. Casamo-nos apenas pelo civil. Tenho uma reforma que dá para os meus gastos pessoais e de saúde. A existência da minha reforma e de tantas outras devesse à criação de políticas sociais para velhice. As políticas sociais para a velhice podem ser definidas como um “ conjunto das intervenções públicas que estruturam as relações entre velhice e a sociedade, encerram em torno da sua evolução todo o trabalho permanente de construção e de recons¬trução da realidade social da velhice” (Guillemard, 1984: 121 cit. in Cardoso et al, 2012). Os idosos estão coletivamente identificados, como um grupo de determinada faixa etária, com direito a prestações financeiras, como contrapartida da perda de estatuto de ativos. O sistema de Segurança Social só foi edificado após a Revolução de 25 Abril de 1974. Esta criação foi tardia, quando comparada com outros países da União Europeia. Anteriormente, no Estado Novo, a velhice foi alvo de dois tipos de políticas, uma relacionada com a assistência pública e outra através das instituições de previdência social. As pessoas velhas, como eu, eram colocadas em asilos e dependentes da ação das instituições de caridade tradicionais em Portugal (religiosas). As pessoas que sofriam de acidentes no trabalho, doença, invalidez e desemprego recebiam um apoio, resultante das contribuições das entidades patronais e/ou dos próprios trabalhadores. Desta forma, após o 25 de Abril de 1974, existia em Portugal um conjunto de pessoas que nunca tinham chegado a contribuir ou que não contribuiu anos suficientes. Estas pessoas atualmente recebem pensões baixas (resultantes da criação do regime não contributivo-1977), vivendo com muitas dificuldades. Algumas das minhas colegas da Universidade Sénior fazem muitos esforços para ter dinheiro para a compra de medicamentos (Fernandes, 2008 cit. in Cardoso et al, 2012). Com a Revolução dos Cravos surgiram várias ideias e governos provisórios, aparecendo as primeiras referências à velhice, substituindo o termo asilo por “pequenas unidades residenciais” (Fernandes, 2008 cit. in Cardoso et al, 2012). Surge ainda na Constituição de 1976 no artigo nº 63, o seguinte “O estado promoverá uma política de terceira idade que garanta a segurança económica das pessoas idosas (…) ” e que supere” o isolamento ou a marginalização social das pessoas idosas ” (Fernandes, 2008 cit. in Cardoso et al, 2012:613). É nesta altura que a velhice surge pela primeira vez, com novos contornos, definidos a partir da identificação dos problemas. As políticas de terceira idade passaram a ter como objetivos a proteção económica e a integração social. A partir de 1978 começa a aparecer uma preocupação até então, praticamente inexistente: a criação de infraestruturas de apoio ao idoso que favorecesse a sua integração e participação na sociedade. Na década de 80, o Estado assume um forte papel ao nível da proteção social. As pensões começam a ser atualizadas e as redes de equipamentos sociais de proteção são aperfeiçoadas. A partir do ano de 1983 assiste-se à humanização das políticas sociais de velhice, através de mecanismos que valorizavam a independência e a autonomia. Para concretizar este objetivo, foram criadas medidas de sensibilização, quer via ensino, quer via comunicação social. Estas tendências, da criação de infraestruturas e de humanização dos cuidados continuam até aos dias de hoje. No entanto, como pessoa mais velha e que usufrui de algumas das políticas sociais existentes, considero que as infraestruturas criadas ainda têm um longo caminho a percorrer. Apesar do nome de “asilo” ter modificado, muitas pessoas da minha idade e outros elementos da sociedade continuam a achar estas infraestruturas como tal, é necessário desmistificar. As ajudas técnicas desenvolvidas não são confortáveis e são de difícil acesso. A formação de quem trabalha com pessoas da minha idade necessita de ser reforçada e a sociedade deve ser sensibilizada para as questões do processo de envelhecimento. Mais tarde aparece a pré-reforma e a reforma antecipada. Conheço muitas pessoas que usufruíram deste tipo de políticas, descontaram durante 20 anos, mas talvez recebam reforma acerca de 30. Estas duas políticas foram aplicadas ao longo dos anos 90 do seculo XX, levando mais tarde, a questões de sustentabilidade financeira do Sistema de Segurança Social (Fernandes, 2008 cit. in Cardoso et al, 2012). A situação de insustentabilidade (muito debatida atualmente) assusta-me, tenho receio pelas gerações futuras. Esta questão deveria ser repensada e novas medidas complementares deveriam ser aplicadas, de forma a acautelar as necessidades de grupos mais vulneráveis, como os idosos. Atualmente com a criação de estabelecimentos, serviços e programas, o papel do Estado, tem diminuído. Pede-se cada vez mais à sociedade civil (família) uma ação social. Nos anos 2000 surge a noção de envelhecimento em atividade/ envelhecimento ativo. As questões de sustentabilidade são repensadas e o regime de antecipação da idade da reforma passa a ser penalizada. O Estado começa a incentivar uma política aberta de incentivo à permanência dos trabalhadores mais velhos no mercado de trabalho. As desigualdades sociais existentes entre as pessoas mais velhas em Portugal são alarmantes. A velhice está associada a cuidados de saúde, situação que antes era esquecida. Bibliografia Cardoso, S. ; Santos, M.; Baptista, M. & Clemente, S. (2012). Estado e políticas sociais sobre a velhice em Portugal (1990-2008). Análise Social, 204 (XlVII série), 606-630
 
Os cartoons também se imaginam velhos!!