Idoso no mercado de trabalho
Reflexão sobre o documentário: “Espaço cidadão-Idosos no mercado de trabalho” (28 min e 35 s)
Palavras-chave: Processo de envelhecimento, mercado de trabalho, direitos dos idosos, aprendizagens, representações sociais e descriminação
O processo de envelhecimento tem suscitado muita discussão científica e ocupado uma posição de destaque nas discussões governamentais, no sentido de proporcionar aos idosos um envelhecimento bem-sucedido. De acordo com a OMS o envelhecimento é um fenómeno real nos países desenvolvidos, em especial no continente europeu, encontrando-se países como o Brasil (país em desenvolvimento) a inverter a sua situação populacional (Araújo, Coutinho & Saldanha, 2005).
O documentário “Espaço cidadão-Idosos no mercado de trabalho”, reflete através de testemunhos e da entrevista a um representante do Conselho Estadual do Idoso (criado nos anos 90), o local dos idosos no mercado de trabalho (nomeadamente num estado brasileiro, Santa Catarina), sendo várias vezes colocadas as seguintes questões: “O idoso tem sido aproveitado?”; “O idoso tem uma vida digna nas sociedades contemporâneas?”
O estado brasileiro em causa encontra-se cada vez mais envelhecido, ou seja como maior longevidade, passando a média de idades de 47 anos (à cerca de 20/30 anos) para 71 anos, existindo diferenças regionais, sociais e culturais que influenciam estes valores.
Em Santa Catarina cerca de 24% da população tem 50 ou mais anos, sendo que 18% estão inseridos no mercado de trabalho. Ao longo do documentário são entrevistadas várias pessoas com cerca de 60/65 anos inseridas no mercado de trabalho. Estes indivíduos apresentam como principais motivações o aumento da reforma e a sensação de se sentirem úteis e com capacidade, gerando prazer na sua vida. Naturalmente o fator saúde encontra-se muitas vezes presente no discurso destes idosos, pois sem saúde (existência de situações de dependência) tal situação não seria possível.
O mundo do trabalho apesar de inserir alguns indivíduos continua a colocar dificuldades e a fomentar alguns preconceitos relativamente a esta faixa etária em análise, levando a sentimentos de desvalorização. Este facto é comprovado por uma afirmação de uma entrevistada “A idade não tem nada a ver com o valor que a pessoa tem” (3 min e 50 s). Também é possível verificar de acordo com o relatado pelo Presidente do Conselho Estadual do Idoso que à medida que a idade avança, maior é a dificuldade em inserir os idosos no mercado de trabalho (cerca de 63% dos indivíduos entre os 50 e 59 estão a trabalhar e apenas 21% com idade igual ou superior a 70 anos).
É necessário o desenvolvimento de pesquisas e de políticas que visam contribuir para melhor compreensão dos aspetos biopsicossociais e culturais da velhice (Araújo, Coutinho & Saldanha, 2005). Exemplo disso é o Conselho Estadual do Idoso, que tem tentado ser visto com respeito e transmitir à sociedade a importância de inserir o idoso no mercado de trabalho e mudar o pensamento e representações sociais que os empresários ainda têm do idoso, como sendo um ser inútil. Este conselho tem como objetivo dar a conhecer os direitos do idoso (o idoso tem direito a trabalhar dentro dos seus limites sem discriminação e ser respeitado).
Os esforços feitos por este conselho e por outras entidades já começam a ter efeito e a importância dos idosos para a sociedade também, surgindo outra visão baseada em três palavras-chave: autonomia, aproveitamento e aprendizagem.
É necessária a criação de programas de especialização que maximizem a sabedoria e a experiência de vida que os idosos detêm. Os empresários necessitam de ser sensibilizados para esta situação admitindo que a população cada vez está mais envelhecida e que a mão-de-obra não se pode limitar a jovens (sendo estes cada vez menos).
Muitos empresários que já compreendem o processo de envelhecimento assim como os direitos dos idosos definem muitas vezes estes trabalhadores como responsáveis, pontuais, cuidadosos, com menor rotatividade, mais zelosos, “vestindo a camisa da empresa”. Começam a admitir que estes trabalhadores devem ser aproveitados devido à vasta gama de capacidades que possuem e à especialização que advém de uma longa experiência.
No documentário, é ainda analisado um Núcleo de Estudos da Terceira Idade, onde são proporcionadas atividades, cursos, atividades e projeto. Muitos dos testemunhos declaram que nunca aprenderam a ler e a escrever. Verificamos que este núcleo revela a capacidade que os idosos ainda têm para aprender e assimilar novos conhecimentos.
Os conhecimentos que os idosos detêm devem ser aproveitados, transmitidos e multiplicados de geração em geração, por mais simples que sejam. Acreditamos que se tal ocorrer, também as novas gerações serão sensibilizadas para a importância e contributo do idoso na sociedade, provocando mudanças sociais importantes a longo prazo. As representações sociais e no imaginário social devem ser trabalhadas de forma a ultrapassar as relações de poder estabelecidas entre os indivíduos idosos e a restante sociedade (Rodrigues & Soares, 2006).
A inclusão do idoso no mercado de trabalho constitui um problema e um desafio da gerontologia. É necessário sensibilizar as entidades políticas/públicas para continuar a mudar a mentalidade da sociedade e os paradigmas existentes. Defendemos que envelhecimento deve ser encarado como uma oportunidade e não como uma fatalidade. Os fatores socioculturais influenciam a forma como a sociedade olha para a velhice e o tipo de relação que ela estabelece como esse segmento populacional (Rodrigues & Soares, 2006). O estudo das representações sociais da velhice poderá contribuir para uma melhor compreensão desta e dos seus significados (Araújo, Coutinho & Saldanha, 2005). Só desta forma os estereótipos de fraqueza e inutilidade podem ser ultrapassados.
Ao refletir sobre o tema defendemos que o idoso deve ser encarado como uma fonte de saber, mais ou menos especializada a nível científico, e como uma resposta eficaz no mercado de trabalho. Na verdade, podem ocorrer situações em que esta faixa etária não poderá dar resposta devido às mudanças físicas e psicológicas que ocorrerem com o envelhecimento. Nestas situações, os trabalhos devem ser adaptados e selecionados de acordo com as capacidades de cada um. Esta situação também ocorrer nos jovens, em que uns têm mais capacidades e aptidões para determinados serviços que outros. Basta apenas conseguir identificar e diagnosticar para cada individuo quais habilidades que possuem, sem discriminação do fator idade.
Bibliografia
Araújo, L, Coutinho, M & Saldanha, A. (2005, Maio-Agosto). Análise comparativa das representações sociais da velhice entre idosos de instituições geriátricas e grupos de convivência. Psico, 36, 197-204
Rodrigues, L & Soares, G. (2006). Velho, Idoso e Terceira Idade na Sociedade Contemporânea. Revista Àgora, 1-29
Souza, W. (Novembro, 2012). Espaço cidadão-Idosos no mercado de trabalho. [28 min e 35 s]. Brasil: TVAL