II Jornadas sobre a família
Mesa 3: “Implicações da saúde e do envelhecimento no contexto da família”
O papel do cuidador informal na família
Oradora: Doutora Andreia Silva
No dia 15 de Maio de 2014 ocorreu no Centro de Congressos da Câmara Municipal de Portalegre as “II Jornadas sobre a família”. Foram várias as temáticas abordadas entre as quais o cuidador informal, pela oradora Andreia Silva. A oradora apresentou o seu projeto e tese de doutoramento, intitulada de “O papel do cuidador informal na família”. O projeto apresentado pela oradora tinha como objetivo geral identificar quais as necessidades/dificuldades dos cuidadores informais e as adaptações dos papéis na família.
A metodologia utilizada foi quantitativa. Os questionários foram aplicados “porta a porta” na cidade de Lisboa em cerca de 2552 famílias.
Portugal, à semelhança de outros países, tem registado profundas alterações na estrutura etária da população. Assiste-se a um duplo envelhecimento representado pela passagem dos valores altos de fecundidade e de mortalidade para valores mais baixos (Silva, 2009).
O aumento da população idosa está associado aos baixos números de natalidade, que baixam de ano para ano, é considerada um fenómeno irreversível na medida em que as gerações deixaram de se renovar (INE, 2007 cit. in Silva, 2009)
Numa esfera individual, o envelhecimento assenta numa maior longevidade dos indivíduos, isto é, num aumento da esperança média de vida. No entanto, o processo de envelhecimento não deve ser apenas definido e caracterizado por fenómenos cronológicos, mas sim de acordo com uma abordagem holística em que um conjunto de condições físicas, funcionais, mentais e de saúde (Andrade, 2009).
A população idosa na sua maioria não é doente, nem dependente. Porém, as transformações biopsicossociais pelas quais o individuo passa ao longo da vida levam ao desenvolvimento de algumas deficiências e ao aumento de uma predisposição para a doença. Tal facto é comprovado pela Direção Geral de Saúde referindo que “os últimos anos de vida são acompanhados de situações de doença e incapacidade, suscetíveis de prevenção (DGS, 2004 cit., in Andrade, 2009). No estudo realizado pela Doutora Andreia Silva verificou-se que cerca de 8% das famílias tem pelo menos um familiar dependente (com dependência de 90% nos autocuidados), existindo cuidadores que prestam no mínimo cuidados há sete anos e no máximo há 30 anos.
O aumento do número de pessoas idosas com dependência tem provocado uma necessidade crescente de cuidados de saúde adequados e de assistência, garantidos por estruturas de suporte formais e informais (Andrade, 2009).
O apoio prestado a pessoas idosas dependentes pode ser garantido por redes de apoio formal e redes de apoio informal (Andrade, 2009). As redes de apoio formal são constituídas pelos serviços estatais de segurança social e os organizados pelo poder local (lares, serviços de apoio domiciliário, centros de dia, centros de convívio, etc.). Neste conjunto destacam-se as instituições privadas de solidariedade social, maioritariamente ligadas à Igreja Católica (Andrade, 2009).
Por outro lado, as redes de apoio informal podem dividir-se em duas grandes categorias: as constituídas pelos familiares da pessoa idosa dependente e as constituídas pelos vizinhos e amigos (Andrade, 2009).
De acordo com Andrade, 2009:2, as famílias são reconhecidas desde sempre como “o principal contexto para a promoção e manutenção da independência e saúde dos seus membros” e como a principal prestadora de cuidados informais.
Os sistemas familiares têm sofrido nos últimos anos modificações, no entanto, apesar das transformações, a família continua a ser “o principal apoio nos cuidados diretos, no apoio psicológico e nos contactos sociais à pessoa idosa dependente” (Pimentel, 2001 e Paúl, 1997 cit. in Andrade, 2009:2).
As famílias de forma a prestarem apoio ao idoso dependente nomeiam um cuidador principal (Andrade, 2009). A cultura portuguesa atribuiu às famílias, em especial aos membros femininos, a responsabilidade de cuidar. Cuidar de um idoso dependente apresenta-se como uma extensão de papéis familiares, que aliado à hostilidade de algumas instituições pressiona a família no sentido de manter esse papel (Sousa, Figueiredo & Cerqueira,2006 cit. in Félix, 2010). No estudo realizado pela Doutora Andreia Silva, verificou-se que a mulher assumia diversos papéis ao mesmo tempo entre os quais mãe, filha, empregada, cuidadora, tia, esposa, etc. As famílias estudadas pela oradora, tinham uma média de rendimentos de 410 € e cerca de metade dos cuidadores tinha menos de 65 anos e encontrava-se empregado (56%). Verificou-se ainda que os cuidadores coabitavam com a pessoa dependente.
O ato de cuidar é encarado com um sentimento de gratidão, obrigação e reconhecimento perante a pessoa idosa que foi cuidadora de outros. O cuidador informal é alguém que presta cuidado, sem receber qualquer tipo de contrapartida, de forma gratuita (Sousa, 2006 cit. in Félix, 2010).
De acordo com Brêtas e Yashitome (2000) cit. in Andrade, 2009 o cuidador formal é contratado pela pessoa idosa ou familiares, sendo renumerado pela prestação de serviços, enquanto o cuidador informal é uma familiar, amigo ou vizinho que assume o cuidado à pessoa idosa quase sempre sem preparação ou renumeração.
As políticas sociais e de saúde cada vez mais encaminham a manutenção da pessoa idosa no domicílio, assumindo o cuidador informal tarefas que deveriam ser garantidas pelos serviços de saúde e sociais (Lage, 2005b cit. in Andrade, 2009).
Os cuidadores informais realizam várias tarefas, que vão desde a vigília e acompanhamento até à administração de medicação e, por vezes, de prestação de cuidados quase profissionais que se desenvolvem sem qualquer limite de tempo. O cuidador devido à quantidade de tarefas a desempenhar e à prestação contínua de cuidados pode desenvolver uma sobrecarga comprometendo a “sua saúde; vida social/familiar, nomeadamente a relação com outros membros da família e o lazer; a disponibilidade financeira; a rotina doméstica e o desempenho profissional” (Andrade, 2009:3).
O facto de não existir um cuidador substituto, a falta de conhecimentos sobre a doença e as técnicas cuidativas e a preocupação de quanto tempo vai durar a situação são alguns problemas que irão favorecer a sobrecarga do cuidador (Andrade, 2009).
Cuidar de uma pessoa idosa dependente no domicílio é difícil, implicando ao cuidador e à família a privação de atividade sociais e profissionais. Muitos cuidadores assumem uma “carreira de cuidadores”, assumindo uma nova profissão e desenvolvendo novas necessidades (Veríssimo e Moreira, 2004 cit. in Andrade, 2009).
O significado de necessidade modifica de individuo para individuo. As necessidades não podem ser vistas como absolutas, variando de acordo com os contextos em que o individuo está inserido (Andrade, 2009).
O cuidador e a pessoa dependente são uma unidade, que se influenciam mutuamente. As dificuldades sentidas pelo cuidador são interpretadas como fatores que limitam a qualidade do cuidado prestado. Deste modo, é imprescindível que se conheça e analise as necessidades sentidas pelo cuidador (Andrade e Rodrigues, 1999 cit. in Andrade, 2009).
Palma, 1999 cit. in Andrade, 2009:66 ao estudar as expectativas da família com pessoas idosas dependentes, definiu o problema como ““(...) algo que impede ou dificulta a prestação de cuidados informais ao idoso” e necessidade como “(...) uma falta de algo essencial, um vazio a preencher. Representa o necessário para remediar um problema identificado”.
As dificuldades existentes nos cuidadores informais dependem, entre outras razões, da falta de conhecimentos sobre as técnicas cuidativas e os recursos comunitários, a falta de conhecimento dos cuidadores para lidar com o stress provocado pelo ato de cuidar (Paúl, 1997 cit. in Andrade, 2009).
As principais necessidades identificadas por Palma (1999) cit. in Andrade são fisiológicas, económicas, de ajuda de outros e de formação/informação. As necessidades fisiológicas (necessidade de dormir) surgiam devido ao esforço desenvolvido pelos cuidadores, impedindo o repouso (Palma, 1999 cit. in Andrade, 2009).
As dificuldades económicas incluem a dificuldade em obter recursos materiais (fraldas, medicamentos, ajudas técnicas) e recursos humanos (ajuda de terceiros na prestação de cuidados). O estudo apresentado permitiu verificar uma relação direta entre as posses económicas e a institucionalização. As famílias que tinham mais posses económicas institucionalizavam mais, desresponsabilizando-se do ato de cuidar. Grande parte dos cuidadores informais, não tinham possibilidades económicas para fazer face aos gastos.
A dificuldade em obter ajuda de outros para a prestação de cuidados é apontada como outra necessidade. Os cuidadores que têm apoio, apenas o recebem de forma pontual, tornando-se insuficiente.
Por último, a necessidade de formação, informação e sensibilização está relacionada com a falta de informação relativamente à situação de saúde da pessoa idosa e às técnicas de cuidar. Se esta necessidade fosse suprimida, seria possível diminuir o esforço físico e o risco de acidentes na prestação de cuidados à pessoa idosa. (Palma, 1999 cit. in Andrade, 2009)
De acordo com vários autores (Palma, 1999; Sotto Mayor, Sequeira e Paúl, 2006 e Almeida, Miranda, Rodrigues e Monteiro, 2005 cit. in Andrade, 2009) existem outras necessidades e dificuldades sentidas pelo cuidador, como a satisfação das necessidades das pessoas idosas e dificuldade em proporcionar companheirismo ao utente dependente, devido à falta de tempo. Neste sentido, os profissionais deverão ver o cuidador informal como uma unidade recetora de cuidados, e não apenas a pessoa idosa dependente. (Andrade, 2009)
Leme (2000) cit. in Andrade, 2009:68 apoia e complementa a ideia defendida anteriormente, referindo que “os mais modernos conceitos terapêuticos em geriatria, e gerontologia priorizam uma abordagem profissional destes cuidadores através de cursos de formação, informações continuadas e treino/capacitação do cuidador em contexto institucional, no sentido de o preparar para a prestação de cuidados no domicílio”.
BIBLIOGRAFIA
Andrade, F. (2009). O Cuidado Informal à Pessoa Idosa Dependente em Contexto Domiciliário: Necessidades Educativas do Cuidador Principal. Dissertação de mestrado não publicada, Universidade do Minho: Instituo de Educação e Psicologia, Braga
Félix, A. (2010). Quem cuida do cuidador? O custo invisível do ato de cuidar. Tese de doutoramento não publicada, Universidade de Aveiro, Aveiro
Silva, A. (2009). O cuidador informal da pessoa com dificuldades intelectuais e desenvolvimentais: perspetivando a intervenção do serviço social. Dissertação de mestrado não publicada, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Lisboa
